A aproximação entre as obras de Santídio Pereira e André Barion para a ARPA 2026 revela um encontro singular entre diferentes modos de construir paisagem, memória e organicidade no campo da arte contemporânea brasileira. As obras apresentadas no material enviado partem de linguagens formalmente distintas, mas compartilham uma mesma sensibilidade em relação ao tempo, à matéria e à transformação dos elementos naturais em estruturas poéticas.
Na grande xilogravura azul sem título de Santídio Pereira (2026), impressa em papel de algodão e apresentada como obra única, a paisagem surge reduzida a linhas mínimas e vibrações tonais profundas. O artista transforma a tradição da xilogravura em um campo expandido, no qual o gesto gráfico deixa de ser apenas representação para tornar-se atmosfera. As linhas brancas que atravessam o azul intenso evocam montanhas, horizontes ou acidentes geográficos, mas também sugerem percursos interiores e estados de contemplação silenciosa.
A presença do guache Sem título (2025), de Santídio Pereira, amplia esse entendimento da paisagem como síntese poética. Diferentemente da monumentalidade silenciosa da xilogravura azul, o guache opera por condensação formal e delicadeza cromática. Sobre o vazio do papel, formas verdes orgânicas convivem com pequenos elementos alaranjados que sugerem flores, sementes ou fragmentos vegetais suspensos. A composição revela um pensamento visual marcado pela economia de elementos e pela potência do gesto contido, aproximando a natureza de uma experiência íntima, quase meditativa. Nesse trabalho, Santídio transforma o campo pictórico em um espaço de respiração e suspensão, onde figura e paisagem parecem emergir simultaneamente.
A pesquisa de Santídio Pereira parte de uma observação contínua da natureza e dos diferentes biomas do mundo. Sua produção recente reflete um interesse cada vez mais intenso pelas formas orgânicas, pelos ritmos da paisagem e pela tentativa de compreender aquilo que permanece invisível ou incompleto na experiência humana. Existe, em sua obra, uma busca constante por preencher algo que nos falta — uma tentativa de reconexão entre memória, território, espiritualidade e percepção sensível do mundo natural. Essa investigação se desdobra tanto no uso da xilogravura quanto em desenhos, pinturas e objetos, nos quais o artista constrói atmosferas silenciosas e profundamente contemplativas.
Recentemente, o artista retornou de uma residência artística em Angola, na África, experiência que ampliou ainda mais seu contato com diferentes geografias, cosmologias e modos de relação com a paisagem. Em seguida, Santídio parte para uma nova residência artística no Deserto do Atacama, no Chile, entre os dias 15 e 20 de maio de 2026, dando continuidade às pesquisas sobre céu, Via Láctea e constelações — temas centrais de sua última exposição individual na Galeria Estação, realizada em 2025. Nessas investigações recentes, o artista aproxima observação astronômica e experiência espiritual, tratando o cosmos como extensão simbólica da própria paisagem terrestre.
Já André Barion constrói um universo fragmentado e orgânico a partir de tecidos, costuras, cortes e sobreposições. Em obras como Komorebi II (2025) e na série No alado florado da noite sem borboletas, sussurram rumores do porvir (2025), formas florais e estruturas híbridas parecem oscilar entre vegetal, corpo e arquitetura. Seus trabalhos possuem uma dimensão tátil e quase biológica, como se fossem organismos em constante mutação. A costura deixa de ser mero procedimento técnico para assumir caráter de desenho, cicatriz e conexão.
André Barion trabalha com costura para unir tecidos de qualidades diversas, a fim de construir objetos escultóricos. Por meio desse procedimento, busca criar interesse na superfície, abordando questões relativas ao vínculo entre objeto e espectador, fetiche e sedução. A manipulação desses materiais nasce de um interesse pela tapeçaria e aparece também em instalações e pinturas, criando um espaço pictórico que flerta simultaneamente com a figuração — utilizando formas derivadas da natureza — e com a abstração, por meio do uso de grafismos e padronagens.
Atualmente, o artista participa da exposição coletiva TODO CUIDADO É POUCO, realizada na Residência Fonte, com curadoria de Tálisson Melo. A mostra permanece em cartaz até 28 de maio de 2026 e evidencia o aprofundamento de sua pesquisa em torno da materialidade têxtil e da construção de espacialidades sensoriais. Em 6 de outubro de 2026, André Barion inaugura sua próxima exposição individual na Galeria Estação e, na sequência, parte para uma residência artística na CASA Atelier, sob coordenação de Jade Matarazzo, onde permanecerá até 15 de dezembro de 2026. Serão dois meses de imersão e acompanhamento voltados ao desenvolvimento de sua pesquisa recente.
A aproximação entre os dois artistas acontece justamente nesse território em que a paisagem deixa de ser descrição e passa a operar como experiência sensível. Em Santídio, a natureza é condensada em síntese e silêncio; em André Barion, ela explode em fragmentação, cor e crescimento orgânico. Ambos, entretanto, trabalham a ideia de superfície como campo vivo: a madeira gravada de Santídio carrega vestígios do tempo e da matéria, enquanto os tecidos de André preservam marcas de feitura, tensão e sobreposição.
Existe ainda uma dimensão geracional importante nessa aproximação. Nascidos em 1996, os dois artistas elaboram modos distintos de revisitar tradições materiais brasileiras — a xilogravura e o trabalho têxtil — sem recorrer a uma leitura nostálgica. Ao contrário, ambos atualizam essas linguagens por meio de procedimentos contemporâneos que aproximam desenho, objeto e espacialidade.
Na ARPA 2026, esse diálogo cria um contraponto potente entre contenção e expansão, silêncio e proliferação, vazio e ocupação. As obras se relacionam não por semelhança formal imediata, mas por compartilharem uma investigação profunda sobre matéria, memória e construção poética da natureza no contexto contemporâneo brasileiro.