Apresentação
Todas as mostras que fazemos são muito importantes para nós. Esta tem algo mais: uma emoção singular.
Nela reunimos sete artistas que têm em comum alguma condição cognitiva e durante toda a vida exerceram e exercem o talento e a criatividade como a linguagem através da qual se revelam. Dos sete conheci pessoalmente apenas o Ranchinho e o Clovis. No caso dos outros minha relação foi diretamente com as obras.
O curador convidado, José Augusto Ribeiro, pesquisou e conviveu com as obras até ter certeza de que a seleção é a que agora mostramos. Além dele, temos o privilégio de publicar textos de outras duas pessoas muito especiais. O convite ao Eurípedes Junior e ao dr. José Gallucci Neto se deve ao fato de que ambos convivem, cada um em sua especialidade, com pessoas com algum transtorno mental.
Eurípedes trabalhou diretamente com a dra. Nise da Silveira, criando e trabalhando desde então como pesquisador no Museu de Imagens do Inconsciente, que detém um acervo extraordinário já exibido em instituições e bienais de arte, dentro e fora do Brasil. Dr. Gallucci, médico psiquiatra e cientista, também convive com pacientes que cuida e trata, ajudando-os a enfrentar a vida.
Esperamos que Uma língua nova seja uma exposição que, além de chamar atenção para questões que talvez preferíssemos evitar, emocione também vocês.
VILMA EID
Uma língua nova
Esta exposição apresenta trabalhos de sete artistas com transtornos mentais ou deficiências intelectuais. A maioria é brasileira – Aurelino dos Santos, Clóvis Aparecido dos Santos, Enio Sérgio, Esther Morgannah e Ranchinho –, além de dois europeus – Arnold Schmidt e Josef Hofer. O conjunto compreende pinturas, desenhos e esculturas, produzidos desde a metade da década de 1960, mas principalmente de 1980 para cá. E, à exceção das obras de Enio Sérgio e Esther Morgannah, emprestadas à mostra por intermédio do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, os trabalhos reunidos aqui integram o acervo da Galeria Estação.
Tanto quanto os artistas, os trabalhos são diversos. Há representações e transfigurações do mundo empírico e visões de mundos interiores. Há o rigor da geometria e a atitude de gestos expansivos. Há a figuração de cenas rurais, a reelaboração de elementos que compõem a paisagem urbana e manifestações da intimidade. Talvez o autodidatismo nos processos artísticos seja um traço comum neste grupo. Mesmo assim, há artistas que foram privados da oportunidade de estudar e artistas cultos. Há trabalhos realizados sem nenhuma referência no campo da arte e outros informados. Embora se reconheçam artistas, nem todos têm ou tiveram consciência do papel que exercem, com seus trabalhos, no circuito da arte ou, de maneira geral, no mundo da cultura.
Também as condições de produção dessas obras são variadas. Há artistas que jamais tiveram diagnóstico médico, nunca receberam tratamento, que realizaram suas criações em circunstâncias de isolamento e de privações; e há, por outro lado, artistas residentes em instituições especializadas, onde dispõem de ateliê e materiais para trabalhar com autonomia e, ao mesmo tempo, assistidos por profissionais. Um dos objetivos da mostra ao agrupar artistas e trabalhos tão variados é, mesmo, contornar categorizações totalizantes ou homogeneizadoras das relações entre arte e loucura.
Aqui não é o distúrbio ou a deficiência que torna a arte relevante. Não é a doença que explica o que se vê nos trabalhos, assim como o exercício da arte não converte enfermidade em elemento estético. A abordagem da curadoria quer evitar a romantização da condição clínica do autor como gerador criativo, tanto quanto da atividade artística como redenção temporária de eventuais sofrimentos. Resiste, nesse sentido, ao mito do “gênio louco” e a tentativas de construir, por meio da obra, narrativas sobre esses autores. A ideia é, antes, chamar atenção para as particularidades dos processos e dos resultados de cada obra.
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O título da exposição vem do conto “No quadrado de Joana”, da escritora Maura Lopes Cançado (São Gonçalo do Abaeté, MG, 1929 – Rio de Janeiro, RJ, 1993). O texto foi escrito após a autora receber alta de sua segunda internação em um centro psiquiátrico – no Hospital Gustavo Riedel, no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, entre novembro de 1957 e fevereiro de 1958 – e foi publicado pela primeira vez em 16 de novembro de 1958, na capa do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, diário para o qual Cançado colaborava, principalmente com ficções.
Narrado em terceira pessoa, o conto acompanha um episódio de catatonia que acomete a protagonista, Joana. A ação começa com a personagem em marcha, em linha reta, percorrendo por várias vezes o perímetro do pátio (quadrado) do hospital de psiquiatria onde está internada. Pouco depois, Joana se vê paralisada, imóvel. Consciente, acredita que entrou em uma “nova ordem”, sob a qual tudo deve ser reto, quadrado, reiterativo e vertical.
A personagem luta, dali em diante, “para manter-se enquadrada na hora”. Com a boca “fixa”, foge de palavras, círculos e curvas, de flores e da “dança dos sons”, que ameaçariam sua rigidez. Pensa em números “certos” (44, 77, mas não 60, sinuoso demais) e fica à espera de uma “nova linguagem”, adequada à sua condição “plana-lisa-justa”. Até que Joana desaba no chão e mira “olhos impacientes”, quando surge “no ar” uma palavra “nova”: “catatônica”. Diante daquilo, ela “pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?”.
A língua nova de que fala a personagem não é, portanto, um outro idioma, com vocabulário e gramática sistematizados. Nem é propriamente a língua da doença. Se “catatônica” for o primeiro de seus signos, essa linguagem ainda por nascer não surge da protagonista, mas “no ar”, de fora, provavelmente da equipe médica e na forma de um diagnóstico. Assim, uma língua nova não tem significações apenas positivas ou negativas.
Na ambiguidade de sua estrutura, o conto sustenta ao menos duas insuficiências: a da linguagem cotidiana, que não alcança aquilo pelo que Joana passa, que já não serve para descrever a lógica interna que ela experimenta durante o episódio narrado no conto, ou, enfim, que já não diz sobre o mundo em que a personagem entrou; e a da linguagem médica, que classifica Joana, que identifica nela uma síndrome, com uma palavra em que ela não se reconhece, com um termo que não a descreve totalmente nem explica por completo o que ela sentiu e percebeu naquele momento.
Em “No quadrado de Joana”, Maura Lopes Cançado parece testar uma forma de escrita capaz de acompanhar uma experiência psíquica radical, de dizer a loucura (e não apenas algo sobre ela) sem reduzi-la a um diagnóstico. Para isso, conforme o conto, seria preciso uma língua “nova” que escape às convenções e aos padrões da linguagem comum, que subverta a própria função prática, de comunicação e controle, em busca de outras potências de expressão, ainda não conhecidas.
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A literatura sobre Aurelino dos Santos (Salvador, BA, 1942-2026) costuma descrevê-lo como alguém que perambulava pelas ruas de Ondina, na capital baiana, sem camisa, de bermuda e recolhendo objetos para utilizá-los em seus trabalhos – fosse para traçar formas ou para colar os itens na superfície dos trabalhos. Daí que apareçam, em suas obras, embalagens e bitucas de cigarro, rótulos de margarina, caixas de fósforo, tampas de refrigerante, páginas de jornais e revistas. Embora não tenha sido alfabetizado, Aurelino povoa seus trabalhos com textos, palavras, letras e números, às vezes junto de sua assinatura, que memorizou como desenhar.
O próprio artista conta que começou a pintar nos anos 1960, quando trabalhava como cobrador de ônibus, por sugestão do escultor Agnaldo Manoel dos Santos. Em seus trabalhos, Aurelino constrói uma geometria que balança com linhas e pinceladas em direções variadas, cores ácidas e detalhes que se multiplicam pela extensão de telas, madeiras e cartões. Além disso, o artista costumava “cobrir” suas construções totêmicas e paisagens urbanas – planas, que parecem vistas, ao mesmo tempo, de frente e do alto – com respingos de tintas preta e branca, muitas vezes misturadas com areia, o que confere à superfície uma aparência de pedra.
Ranchinho (Oscar Bressane, SP, 1923-Assis, SP, 2003) também não chegou a ser alfabetizado. Tinha dificuldades de fala e audição. Desde a infância, Sebastião Theodoro Paulino da Silva viveu na cidade de Assis, no interior de São Paulo. São comuns as descrições de seu comportamento como infantil e brincalhão, junto com o registro de episódios de exibicionismo sexual. Ranchinho começou a pintar na segunda metade da década de 1970 e estima-se que tenha produzido cerca de 3 mil obras. Nesta mostra, estão trabalhos realizados principalmente na década de 1980, entre cenas de circo e cenas de costume da vida rural. Sua obra chama atenção, entre outros motivos, por sua habilidade em realizar uma pintura rápida, de gestos decididos e pinceladas soltas, que parecem fáceis, para dar forma a figuras sem contorno. Além da energia expressiva, trata-se de uma pintura com vigor material. Muitas vezes a assinatura e a datação, feitas grandes, com vontade e no quarto quadrante das superfícies, passam a compor a imagem, acrescentando aos acontecimentos representados sinais gráficos de letras e números.
Já Arnold Schmidt (Wiener Neustadt, Áustria, 1959) e Josef Hofer (Wegscheid, Alemanha, 1945) são artistas residentes em instituições: o primeiro vive na House of Artists do vilarejo Maria Gugging, na Áustria, desde 1986; e o segundo está desde 1992 no centro de uma organização social dirigida a pessoas com deficiências físicas e intelectuais, a Lebenshilfe, em Ried im Innkreis, também na Áustria. Desde que foi internado pela primeira vez em um hospital psiquiátrico, no começo dos anos 1980, Schmidt começou a produzir seus trabalhos de arte. Mas, a partir da década seguinte, sua produção constitui-se de variações de um mesmo esquema de imagem, construído com gestos circulares, concentrados no centro do papel, sobrepondo tinta acrílica, guache, grafite e pastel oleoso. Pelos movimentos rápidos que se acumulam numa determinada área do suporte, o trabalho não raro é suspenso no limiar do abstracionismo – embora, com maior ou menor facilidade, a depender da gestualidade envolvida no processo, seja possível reconhecer figurações de corpos humanos, bicicletas, pássaros e aviões, quase sempre em cores vibrantes.
Josef Hofer, por sua vez, começou a produzir em ateliê terapêutico em 1977. O artista nasceu surdo, com mudez e restrições de mobilidade, em meio à Segunda Guerra Mundial, e sobreviveu ao III Reich. Os primeiros desenhos, na juventude, reproduziam sua rotina na fazenda onde morava, com tratores, máquinas agrícolas e objetos domésticos. Mas, a partir de 2000, já na instituição onde vive até hoje, Hofer dá uma guinada em sua figuração quando passa a desenhar (e desenhar-se) diante de um espelho de 1 metro quadrado, posicionado no chão de seu quarto. Desde então, a partir de experiências de autoconsciência e com a própria sexualidade, realizou diversos trabalhos eróticos, em que multiplica a própria imagem, sempre emoldurada por faixas vermelhas, amarelas e laranja, verticais, horizontais e diagonais. Os trabalhos – feitos com grafite e lápis de cor – combinam, assim, construções meio abismais (de formas repetidas que lançam a figuração para “dentro” do papel) e figurações distorcidas do corpo humano. As obras de Hofer presentes na exposição pertencem a esse período, realizadas entre 2001 e 2014. Nesse meio-tempo, em 2007, Hofer ganhou de presente um livro com reproduções de desenhos e aquarelas de outro artista austríaco, Egon Schiele (Tulln an der Donau, Áustria, 1890-Viena, Áustria, 1918), que, como é perceptível, marcou sua produção dali em diante.
Clóvis Aparecido dos Santos (Avaré, SP, 1960) é muitas vezes descrito como andarilho. Relatos contam que o artista, na juventude, foi caminhando do interior de São Paulo, onde nasceu, até o Rio de Janeiro, onde vive desde então. A partir dos anos 2000, o artista passou a frequentar o Ateliê Gaia, espaço usado e gerido de modo coletivo por artistas usuários da rede de saúde mental da capital carioca e acompanhados pela equipe do Museu Bispo do Rosário. Ali, Clovis realiza pinturas e esculturas com uma variedade notável de materiais: instrumentos musicais, pedaços de caixa de papelão, tecidos, garrafas pet, cavaletes. E parte de suas esculturas é feita, também, com papel machê, usado tanto para dar corpo às estruturas, quanto para aglutinar componentes. Assim, matéria e imagem convergem na junção de suportes diversos e no hibridismo das figurações, que não raro misturam elementos de seres humanos, animais, vegetais e veículos. Números, palavras e um grafismo que lembra a escrita participam, também, desse sistema.
Como Clóvis, Enio Sérgio (São João del Rei, MG, 1962) concebe criaturas híbridas, sobretudo em sua produção de 2010 para cá. Mas suas imagens de ave com calçados e guarda-chuva, de um réptil bípede, espécie de dinossauro, com chapéu e roupa psicodélicos, inspiram mais humor do que monstruosidade. O início da produção de Enio está relacionado ao período de sua internação no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, entre 1987 e 1999. Desde então, o artista frequenta o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), que, por sua vez, passou a colecionar obras de Enio. Sua produção é bastante variada. Inclui desde desenhos de inclinação surrealista, em preto e branco, até imagens abstratas e coloridas, passando pela figuração de cabeças de seres imaginários, meio-humanos-meio-animais, preenchida por cores intensas e padrões geométricos. Por um tempo, o artista se recusava a vender seus trabalhos. Fazia cópias reprográficas de desenhos e pinturas, coloria cada uma delas e as vendia a preços módicos. Hoje, não, expõe e comercializa seus “originais”. Recentemente, em 2024, uma exposição no Centro Cultural da Universidade de São João del Rei, em Minas Gerais, apresentou um panorâmica de sua produção, com trabalhos do final da década de 1990 até obras recentes, durante o I Festival Nise da Silveira.
Outra frequentadora do MII é Esther Morgannah (Rio de Janeiro, RJ, 1965), que vai regularmente à instituição há cerca de dois anos. Desde então, a artista ampliou seu trabalho de pintura e escultura. As peças que a artista apresenta nesta mostra integram sua produção mais recente de cerâmicas policromadas. E são três: uma inspirada nos peixes abissais das fossas Mariana, o ponto mais profundo da Terra, no oeste do oceano Pacífico; outra remissiva a representações de deuses astecas; e a terceira com a figura de um ser marinho, imaginada por Morgannah em alusão ao mito de Atlântida. Trata-se, portanto, de uma obra culta, com interesse por mitologia e, entre outras coisas, pelos arquétipos de comportamento, imagens e símbolos que, na teoria do psiquiatra suíço Carl Jung (Kesswil, Suíça, 1875-Küsnacht, Suíça, 1961), habitam o inconsciente coletivo da humanidade. Morgannah cursa, hoje, graduação em museologia. Participa do movimento de Luta Antimanicolonial (uma perspectiva crítica que liga o movimento antimanicomial com as pautas contracoloniais, antirracistas e antiproibicionistas), com base no Rio de Janeiro, e de grupos de reivindicação pelos direitos de pessoas LGBTQIAPN+, entre eles o Transcrições, associado ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, também na capital carioca.
Aliás, o período em que a exposição se concentra, dos últimos 46 anos, remonta à organização do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, criado em 1978, no Rio de Janeiro, e da Luta Antimanicomial, que se fortaleceu em âmbito nacional na metade da década de 1980. Juntos, ambos os movimentos sociais mudaram o cenário de luta, no Brasil, pelos direitos da pessoa em sofrimento psíquico e pelo fim da lógica do manicômio (de segregação, confinamento e práticas de maus tratos, violentas, punitivas) como tratamento. Sucessoras de um trabalho iniciado na primeira metade do século XX, por psiquiatras como Osório César (João Pessoa, PB, 1895-Franco da Rocha, SP, 1979) e Nise da Silveira (Maceió, AL, 1905-Rio de Janeiro, RJ, 1999), tais ações continuam a alterar, hoje, os modos como a sociedade brasileira se relaciona com a loucura – por meio de políticas públicas dirigidas à reforma psiquiátrica e de iniciativas que visam à ampliação da conscientização geral sobre saúde mental e à diminuição do estigma contra indivíduos com transtornos e deficiências. Enquanto isso, há uma língua em formação em cada obra presente nesta exposição.
José Augusto Ribeiro
Curador
Galeria Estação reúne sete artistas para ampliar os limites entre arte e linguagem na exposição Uma língua nova
Com curadoria de José Augusto Ribeiro e colaboração do Museu de Imagens do Inconsciente, coletiva reúne 60 obras e propõe um novo olhar sobre a produção de artistas historicamente associados ao campo da saúde mental, recusando leituras baseadas em diagnósticos e afirmando a potência singular de cada um deles
Com abertura em 25 de agosto e visitação até 26 de setembro de 2026, a Galeria Estação apresenta a exposição coletiva Uma língua nova. A mostra, que tem curadoria de José Augusto Ribeiro, reúne um conjunto de 60 obras de Arnold Schmidt, Aurelino dos Santos, Clovis Aparecido dos Santos, Enio Sérgio, Esther Morgannah, Josef Hofer e Ranchinho, propondo reflexões sobre linguagem e alteridade a partir de uma série de trabalhos produzidos por artistas diagnosticados com transtornos mentais e deficiência intelectual, convidando o público a vivenciar uma gramática própria e uma forma singular de construir imagens, narrativas e modos de existir. O vernissage, com início às 18h, incluirá, às 20h, um bate-papo entre o curador, o psiquiatra Dr. José Gallucci Neto e Eurípedes Junior, músico, pesquisador, museólogo e idealizador do Museu de Imagens do Inconsciente, ao lado da Dra. Nise da Silveira, que assinam textos do catálogo de Uma língua nova.
O título da mostra foi inspirado no conto No Quadrado de Joana, de Maura Lopes Cançado, escritora que ocupa lugar central na reflexão sobre literatura, sofrimento psíquico e luta antimanicomial. Para Ribeiro, a expressão "uma língua nova" sintetiza a experiência compartilhada pelos artistas reunidos na exposição ao projetar a invenção de linguagens que não se subordinam aos códigos estabelecidos pela história da arte, pela medicina ou pela cultura, afirmando modos particulares de percepção e criação.
"Nosso interesse era reunir artistas muito diferentes entre si, produzindo em contextos igualmente distintos. Essa diversidade impede interpretações homogêneas sobre esse conjunto de obras, justamente porque ele não constitui um tipo unívoco de produção", afirma o curador. "Cada artista parece desenvolver uma linguagem própria que escapa aos repertórios artísticos mais conhecidos e validados no circuito da arte. O título descreve, justamente, essa situação de liberdade na criação de imagens e objetos."
Embora dialogue com uma tradição que valorizou a produção artística como expressão legítima, Uma língua nova não pretende reafirmar a categoria da chamada "arte da loucura". Ao contrário, parte do princípio de que essas obras devem ser vistas antes de qualquer enquadramento clínico ou biográfico, reconhecendo sua força estética, inventividade formal e autonomia poética. A idealização da exposição também está intimamente ligada à trajetória da própria Galeria Estação. Ao longo das últimas duas décadas a instituição reuniu em seu acervo trabalhos de artistas que produziram à margem dos circuitos tradicionais da arte.
"Todas as mostras que fazemos são muito importantes para nós. Esta tem algo mais: uma emoção singular. Nela reunimos sete artistas que têm em comum alguma condição cognitiva e durante toda a vida exerceram e exercem o talento e a criatividade como a linguagem através da qual se revelam. Dos sete conheci pessoalmente apenas o Ranchinho e o Clovis. No caso dos outros minha relação foi diretamente com as obras.
O curador convidado, José Augusto Ribeiro, pesquisou e conviveu com as obras até ter certeza de que a seleção é a que agora mostramos. Além dele, temos o privilégio de publicar textos de outras duas pessoas muito especiais. O convite ao Eurípedes Junior e ao Dr. José Gallucci Neto se deve ao fato de que ambos convivem, cada um em sua especialidade, com pessoas com algum transtorno mental. Esperamos que Uma língua nova seja uma exposição que, além de chamar atenção para questões que talvez preferíssemos evitar, também emocione o público", afirma Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação, no texto de apresentação da exposição.
Linguagens singulares
Longe de constituírem um grupo homogêneo, os sete artistas reunidos na mostra apresentam trajetórias, contextos e processos criativos profundamente distintos. Há autores que passaram por longos períodos de institucionalização psiquiátrica e outros cuja produção se desenvolveu em ambientes familiares; artistas autodidatas e criadores que estabeleceram relações consistentes com museus, ateliês e centros de pesquisa; brasileiros e europeus; desenhistas, pintores e escultores cujas obras nasceram de experiências absolutamente particulares.
Essa diversidade constitui um dos fundamentos da curadoria. Em vez de buscar semelhanças biográficas, Ribeiro aproxima produções que compartilham outra característica: a capacidade de instaurar sistemas próprios de representação, independentes de convenções acadêmicas ou expectativas do circuito artístico.
Nesse percurso, o visitante encontrará o universo simbólico das pinturas e esculturas de Clovis Aparecido dos Santos, as construções visuais de Arnold Schmidt, a produção intensa de Ranchinho – presente na mostra com 14 pinturas –, a pesquisa formal de Josef Hofer, as esculturas de influência asteca e inspiração marítima de Esther Morgannah e as abstrações multicoloridas das obras de Enio Sérgio, compondo um panorama que evidencia não uma identidade comum, mas a riqueza de diferentes modos de imaginar, organizar e reinventar o mundo.
Ao reunir essas produções em um mesmo espaço, Uma língua nova também dialoga com um capítulo decisivo da história da psiquiatria brasileira. Sem transformar esse contexto em tema central da exposição, a curadoria destaca o legado de pesquisadores como Osório César e Nise da Silveira, pioneiros ao compreender a produção artística como forma legítima de expressão, rompendo com leituras exclusivamente patologizantes da experiência psíquica. Essa perspectiva ganha fôlego no texto de catálogo do psiquiatra Dr. José Gallucci Neto, que propõe um deslocamento fundamental: em vez de buscar nas obras a confirmação de um diagnóstico, convida o espectador a reconhecer nelas a singularidade de uma experiência estética. Segundo ele, a criação artística não pode ser reduzida a sintoma, tampouco compreendida como consequência do sofrimento mental. Cada obra estabelece uma relação própria com a linguagem, produzindo sentidos que ultrapassam enquadramentos clínicos.
Nesse contexto interpretativo, a exposição também se aproxima da trajetória do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), cuja contribuição para a preservação e o estudo dessas produções permanece incontornável. A interlocução com a instituição foi decisiva para a mostra, permitindo incorporar obras de Esther Morgannah e Enio Sérgio, que têm trabalhos apresentados pela primeira vez em São Paulo, e ampliar o horizonte inicialmente formado pelo acervo da Galeria Estação.
Como observa Eurípedes Junior, músico, museólogo, curador e pesquisador que atuou por 30 anos no MII, autor de Do Asilo ao Museu: Nise da Silveira e as coleções da loucura (Editora Holos, 2024), esse patrimônio não representa apenas um capítulo da história da psiquiatria, mas um conjunto de obras que conquistou reconhecimento artístico próprio, exigindo novas formas de preservação, pesquisa e difusão. Ao longo das últimas décadas, esse acervo deixou de ocupar exclusivamente o campo da saúde mental para integrar o debate sobre arte brasileira e produção contemporânea.
Essa mudança de perspectiva também atravessa a própria concepção curatorial. Ao comentar o processo de pesquisa, Ribeiro ressalta que a exposição não pretende construir um panorama sobre doença mental, mas criar uma situação em que cada artista pudesse ser reconhecido por sua potência inventiva.
É justamente nesse ponto que o diálogo com Maura Lopes Cançado revela convergência. A expressão "uma língua nova" não funciona como metáfora da loucura, mas como símbolo de resistência às classificações. Assim como a escritora construiu uma obra que tensiona os limites entre literatura, experiência e linguagem, os artistas que compõem a exposição elaboram universos visuais que nascem de regras próprias, indiferentes às convenções estéticas ou aos sistemas tradicionais de interpretação.
Ao reunir artistas de origens, gerações e percursos tão distintos, a Galeria Estação reafirma uma vocação que acompanha sua trajetória desde a fundação em 2004: ampliar o campo da arte brasileira a partir de produções que desafiam fronteiras culturais, sociais e estéticas. Em Uma Língua Nova, esse compromisso encontra uma de suas expressões mais contundentes.
Sobre a Galeria Estação
Com um acervo entre os pioneiros e mais importantes do país, a Galeria Estação, inaugurada no final de 2004 por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp, consagrou-se por revelar e promover a produção de arte brasileira não-erudita. Sua atuação foi decisiva para a inclusão dessa linguagem no circuito artístico contemporâneo ao editar publicações e realizar exposições individuais e coletivas sob o olhar dos principais curadores e críticos do país. O elenco, que passou a ocupar espaço na mídia especializada, vem conquistando ainda a cena internacional ao participar, entre outras, das exposições Histoire de Voir, na Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, na França, em 2012, e da Bienal Entre dois Mares -- São Paulo | Valencia, na Espanha, em 2007. Emblemática desse desempenho internacional foi a mostra individual Veio -- Cícero Alves dos Santos, em Veneza, paralelamente à Bienal de Artes, em 2013. No Brasil, além de individuais e de integrar coletivas prestigiadas, os artistas da galeria têm suas obras em acervos de importantes colecionadores e de instituições de grande prestígio e reconhecimento, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Afro Brasil (SP), o Pavilhão das Culturas Brasileiras (SP), o Instituto Itaú Cultural (SP), o SESC São Paulo, o MAM- Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o MAR, na capital fluminense.
Sobre José Augusto Ribeiro
José Augusto Ribeiro é curador e professor de História da Arte com mestrado e doutorado em Teoria, História e Crítica de Arte pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre as exposições recentes que organizou estão a coletiva O Horror, o Humor e o Absurdo (2026), que reuniu artes visuais e cinema, na Casa de Cultura do Parque, em São Paulo, e Carlos Martins: Sombra da Terra (2025), apresentada em Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo, e no Rio de Janeiro, no Paço Imperial. Antes, trabalhou como curador sênior da Pinacoteca de São Paulo, de 2012 a 2022. Entre as exposições que organizou na instituição nesse período estão A Máquina do Mundo – Arte e Indústria no Brasil 1921-2021, apresentada de novembro de 2021 a fevereiro de 2022; No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 anos (prêmio da Associação Paulista de Crítica de Arte de 2017, na categoria Melhor Exposição Retrospectiva), em cartaz de agosto de 2017 a janeiro de 2018; Fora da Ordem – Obras da Coleção Helga de Alvear (2016), em parceria com o curador Ivo Mesquita; e Uma Coleção Particular: arte contemporânea no acervo da Pinacoteca, realizada entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. Trabalhou também como diretor do Departamento de Artes Visuais do Centro Cultural São Paulo, de 2010 a 2012, onde realizou as exposições Antonio Malta e Erika Verzutti (2012); José Damasceno – Storyboard (2012); e Fernanda Gomes – Monográficas (2011), indicada ao Prêmio Bravo! na categoria de Melhor Exposição do Ano. Foi curador de mostras realizadas em outras instituições do Brasil, a exemplo de Um mundo a perder de vista – Guignard (2009), apresentada na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.
Sobre José Gallucci Neto
Dr. José Gallucci Neto é um médico psiquiatra e pesquisador clínico reconhecido nacional e internacionalmente por sua atuação de vanguarda na psiquiatria intervencionista e na neuromodulação, com destaque no tratamento de transtornos psiquiátricos graves e resistentes às terapias convencionais. Graduado em Medicina, obteve o título de Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em 2010. Alinhando sua prática às inovações globais, realizou em 2020 um fellowship em Eletroconvulsoterapia (ECT) na prestigiada Columbia University, em Nova York. Sua atuação em grandes centros de saúde inclui a fundação e coordenação da residência médica em psiquiatria do Instituto Bairral, uma das maiores instituições psiquiátricas da América Latina. Por sua excelência clínica e dedicação ao serviço público, recebeu por duas vezes (em 2007 e 2020) o prêmio de Melhor Médico Psiquiatra Assistente do Ano concedido pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (IPq-HCFMUSP). Também possui o título honorífico de International Fellow da American Psychiatric Association.
Sobre Eurípedes Junior
Eurípedes Gomes da Cruz Junior é músico, museólogo, pesquisador e curador, amplamente reconhecido como um dos mais importantes continuadores do legado da psiquiatra Dra. Nise da Silveira. Sua trajetória profissional e acadêmica confunde-se com a própria história da reforma psiquiátrica e da valorização da arte como expressão do inconsciente no Brasil. Iniciou seu trabalho ao lado da Dra. Nise da Silveira na Casa das Palmeiras – clínica pioneira fundada por ela em 1956 com o objetivo de reintegrar ex-internos psiquiátricos à sociedade através do afeto e da liberdade. Graduado em Música e Composição pela UFRJ, Eurípedes utilizou inicialmente a sensibilidade musical para criar oficinas e atividades de expressão sonora voltadas aos frequentadores do espaço. Posteriormente, consolidou sua atuação no Museu de Imagens do Inconsciente (MII), no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, trabalhando diretamente com a Dra. Nise da Silveira por cerca de 25 anos, integrando a equipe original que revolucionou os métodos terapêuticos tradicionais e violentos da época.