encerrado
04.10.2022 a 05.11.2022
Rua Ferreira de Araújo, 625 | São Paulo - Brazil

INTRODUÇÃO

GERMANA MONTE-MÓR

 

Costumamos dizer que o tempo passa muito rápido...

Com a pandemia, dois anos com a galeria abrindo e fechando, o tempo voou ainda mais.

A ultima exposição da Germana foi em 2017, e eu achei que tivesse sido ontem.

Os artistas aproveitaram muito o período de reclusão para criar. A Germana também usou bem aquele momento, e o resultado é o que ela nos apresentará nesta exposição, com curadoria de Camila Bechelany.

Revendo a belíssima publicação de Da cabra, lançado em 2013, com textos de vários críticos, vejo como Germana mantém as mesmas formas de linhas orgânicas e curvilíneas.

Ela introduziu a cor, o feltro, as telas duplas, mantendo a mesma assinatura que nos leva imediatamente a reconhecer a sua obra.

Deixo para a Camila a análise das obras. Para mim fica o contentamento de apresentar esta sua segunda exposição na Galeria Estação.

 

Vilma Eid

 

curador

Da infinidade da linha e da (im)perfeição das pedras


Pinturas recentes de Germana Monte-Mór


Por Camila Bechelany


 


No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma. (João Cabral de Melo Neto)


 


Life, I have argued, is not confined within points but proceeds along lines. (Tim Ingold)


 


A presente exposição de Germana Monte-Mór reúne uma série de novos trabalhos produzidos nos últimos três anos. São pinturas de diferentes dimensões caracterizadas pelo uso de cores sólidas, justapostas e derivando as formas orgânicas tão características da imagética da artista. O plano da pintura ganha, nessas obras, profundidade, pela criação de fronteiras entre as formas por meio da aplicação dos pigmentos ou de asfalto sobre o tecido – técnica especialmente bem desenvolvida pela artista – ou ainda através de incisões feitas na tela.


Germana parece observar o mundo a partir de distintos pontos de vista, do mais distante ao mais aproximado. Nas pinturas maiores, as formas lembram caminhos de rios sobre um terreno acidentado e rochoso, assemelhando-se a detalhes de mapas topográficos. Estando diante dessas pinturas, não há como não pensar em suas séries de fotografias Âmbar, 2008, e Pedra mole, 2010, feitas na natureza, em espaços abertos, com a presença particular de elementos minerais. No primeiro trabalho, ela retrata leitos de riachos cobertos de seixos que, vistos através do movimento da água, pelo fenômeno da refração, aparentam ser macios e maleáveis.


Captados pela artista, esses fragmentos de paisagens parecem estar em pleno movimento, e é difícil identificar o que é sólido e o que é líquido. Pedra mole, já no título, sugere também essa ilusão de que o duro é tenro. As imagens em preto e branco mostram paisagens áridas em que grandes pedras aparecem em ângulo aproximado debaixo de um céu amplo. Nessas fotos, os gigantes volumes e suas sombras formam manchas onduladas em contraste com a luz que vem de cima. Entre a natureza e a escultura, entre a materialidade e a presença do impalpável.


Segundo o ensaísta Roger Caillois (1913-1978), “as pedras possuem um não sei quê de grave, fixo e de extremo, de indestrutível ou de já findo. Elas seduzem por uma beleza própria, infalível, imediata, que não deve prestar contas a ninguém. Necessariamente perfeita, ela exclui, entretanto, a ideia de perfeição, justamente por não admitir aproximações, erros, excessos".1 As pedras, nesse sentido, são como estruturas espontâneas e em latência, elementos atemporais da paisagem como ecos de uma ordem muito mais vasta e difusa e da ordem do presente ao mesmo tempo. A pedra é avessa à própria ideia de ordem, e, nesse sentido, ainda que não orgânica, ela é visceral. As fotografias de Germana emanam essa bela (im)perfeição das pedras ao mesmo tempo em que suas pinturas parecem resgatar as linhas e caminhos vistos nas sombras delas. 


Mas, ao contrário do que se poderia crer, a pintura de Germana não deriva de imagens e fotografias. Ela fez o caminho inverso. Primeiro vieram a gravura, o desenho e a pintura, sempre marcados pela busca da linha infinita, orgânica, da marca sobre a superfície do papel. Depois é que vieram os registros fotográficos de paisagens naturais. Germana vem desenvolvendo, desde os anos 2000, pinturas que ganharam o espaço tridimensional, ao se “descolarem” do muro. Em sua instalação realizada na Capela do Morumbi, São Paulo, as pinturas feitas sobre papel damar vanish on, transparente, foram afixadas tornando-se espécies de peles sobrepostas às paredes de barro armado do edifício, enfatizando sua materialidade como corporalidade.2


Essa experiência abriu caminho para uma pesquisa em direção à tridimensionalidade, resultando em diferentes resultados escultóricos. Algumas pinturas de menor escala do conjunto reunido aqui apresentam um resultado de procedimentos de sobreposição de telas e criação de volumes. As formas curvilíneas formam volumes delimitados em baixo-relevo com aberturas feitas por incisões no tecido. “Anteriormente, as formas que eu criava eram acompanhadas de sombras, que eu fazia na própria pintura. Agora, utilizo duas telas sobrepostas e essas sombras surgem em uma das camadas, de forma concreta”,3 diz a artista. As formas geradas nesse procedimento se mantêm no vocabulário formal da artista, mas o gesto de formar a cavidade é mais radical do que antes. A tela cortada resulta numa escultura de parede que, ao mesmo tempo que delimita a ocupação do espaço com seu “corpo” de quadro, ainda mantém a ilusão de expansão infinita do espaço pela cor não emoldurada.


Na composição das telas, há sempre um plano de cor um pouco “suja” mas intensa e dois, três ou até quatro elementos que flutuam e se destacam por aproximação ou distanciamento. A artista, que busca, desde o início de sua trajetória, modos de traçar linhas sobre o plano delimitando áreas de cor e matéria, encontrou uma nova forma de transposição de sua poética do papel para um espaço tridimensional criado sobre a superfície.


 


O interesse pelos materiais continua sendo uma das linhas de orientação do trabalho de Germana. Talvez por ter iniciado sua prática na gravura, ela tenha conquistado, desde o início, o controle de diferentes técnicas, e a experimentação de superfícies e contatos tornou-se, para ela, uma constante. Essa prática experimental é comum a sua geração de artistas, que no início dos anos 1980 esteve impactada pelas vanguardas das décadas de 1950, 1960 e 1970 que instauram procedimentos em que o gesto transpassa o objeto. Uma maneira de preencher a lacuna entre o contato e toque direto e o pensamento abstrato foi, naquele momento, uma atenção à matéria do trabalho.  Germana cita os artistas Joseph Beuys, Eva Hesse e Mira Schendel como influências para ela. Esses três artistas levaram seus materiais ao limite da experiência e deixaram para a história da arte um legado de desvio da norma. O gesto começava ali a apontar para o seu entorno, referindo-se ao contexto como um todo.


Para Vilém Flusser, o gesto é uma intencionalidade dirigida ao outro, é uma forma de linguagem humana. Em sua perspectiva, os gestos da arte manipulam o tempo com a finalidade de comunicar, se exibem para construir sentido.4 É neste contexto que as obras de Germana se destacam por apresentarem regularmente formas a partir de linhas orgânicas abertas e fechadas, criando uma linguagem gráfica quando vistas em conjunto.


Uma das teses de como terá surgido a escrita para a humanidade é que ela tenha começado na China antiga através da observação das linhas mais ou menos retas deixadas pelas pegadas de pássaros sobre a areia. Esses traçados teriam inspirado alguns de nossos semelhantes a desenhar marcas sobre a terra. Para o antropólogo Tim Ingold: "No lugar de uma infinita variedade de linhas e vidas que nos são apresentadas na experiência fenomênica, fomos deixados com apenas duas grandes classes: linhas que são retas e linhas que não são. As primeiras são associadas com a humanidade e a cultura, as segundas com a animalidade e a natureza".5 Traçando seus caminhos curvilíneos pelo mundo, humanos e não humanos criam-se e recriam-se a si mesmos na imanência de suas mútuas relações, bem como contribuem com seus movimentos para o tecido em que se encontram inseridos.


Dos caminhos e linhas resultantes das nossas atividades, apenas uma pequena minoria possui o caráter retilíneo que um desejo do pensamento "ocidental" faria supor. A hegemonia das linhas retas é um fenômeno da modernidade, não da vida em geral, tendo, por isso, alguma coisa de fundamentalmente artificial quando afirma sua generalidade. A obra de Germana deriva de formas orgânicas e curvilíneas, mas em nenhum momento ela busca representar algo que seja exatamente uma pedra, um curso d’água... Talvez aqui a primeira formação da artista, a Antropologia, tenha lhe servido para se constituir como “observadora-participante”, que sabe que a relevância do trabalho de campo não está em olhar as coisas (e as pessoas) do entorno para poder descrevê-las, mas no estar com elas, viver com elas para poder ser afetada por elas. O trabalho de Germana nos desloca assim do lugar de contextualização para o lugar da experiência, a prática vem antes da exposição da técnica.


Seu gesto é abstração, se aproxima de uma escrita. A escolha e a intenção da artista são acontecimentos que precedem a ação mas podem ocorrer simultaneamente. A intenção carrega parte do significado de cada obra de arte. Isso nos permite afirmar que o uso da liberdade da não representação, conquistada pelas vanguardas e praticada por Germana, permite olhar para a arte não só pelo viés dos rastros (objetos/imagens) mas por meio de seus gestos (o corpo, vestígio).


 


Notas


1 CAILLOIS, Roger. A escrita das pedras. Trad. de Hygina Bruzzi. Inédito, p. 1.


2 Em um texto de 1997, "Quase desenhos", a crítica Sônia Salzstein já havia enfatizado o caráter de fisicalidade do trabalho de Germana. Segundo ela: “pode-se dizer, assim, que a preocupação mais geral do trabalho de Germana é repor o corpo em correlação com o espaço que ocupa, isto é, numa escala e num regime de tempo que lhe garantam o aparecimento imperativo e pontual no espaço”.


3 Entrevista realizada por Tatiane de Assis publicado em 18 set 2020. Disponível em <https://vejasp.abril.com.br/coluna/arte-ao-redor/germana-monte-mor-galeria-estacao/>.


4 FLUSSER, Vilém. Gestos. São Paulo : Annablume, 2014, p. 69.


5 INGOLD, Tim. Lines: a brief history. Londres: Routledge, 2007, p. 155.

RELEASE

 


 


GALERIA ESTAÇÃO INAUGURA EXPOSIÇÃO DA ARTISTA GERMANA MONTE-MÓR


 


 


De 4 de outubro a 5 de novembro, Da infinidade da linha e da (im)perfeição das pedras reúne cerca de 25 pinturas produzidas durante a pandemia


 


A Galeria Estação, uma das mais celebradas vitrines da arte brasileira, inaugura, em 4 de outubro, a exposição Da infinidade da linha e da (im)perfeição das pedras, que poderá ser vista pelo público até 5 de novembro. Sob a curadoria de Camila Bechelany, a mostra reúne cerca de 25 pinturas produzidas por Germana Monte-Mór nos últimos três anos. “São obras de diferentes dimensões caracterizadas por cores sólidas e justapostas, derivando as formas orgânicas que expressam a linguagem imagética da artista. Nelas, o plano da pintura ganha profundidade pela criação de fronteiras entre as formas por meio da aplicação de pigmentos, de asfalto sobre o tecido ou, ainda, por meio de incisões na tela”, diz Camila, que, ao abordar o trabalho de Germana, evoca um trecho do poema “Educação pela pedra”, de João Cabral de Melo Neto, que diz assim: “No Sertão a pedra não sabe lecionar/ e se lecionasse, não ensinaria nada/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra/ uma pedra de nascença, entranha a alma”.


 


De acordo com a galerista e colecionadora de arte Vilma Eid, anfitriã da Galeria Estação, a artista aproveitou muito bem o período de confinamento durante a pandemia para produzir bastante. Agora, essas pinturas compõem a segunda exposição individual de Germana Monte-Mór neste espaço cultural de Pinheiros. A primeira aconteceu em 2017, quando ela desenvolveu, na galeria, o núcleo de trabalho com artistas contemporâneos. “Germana é uma artista experiente, talentosa e consagrada. Ela mantém as mesmas formas de linhas orgânicas e curvilíneas, introduziu a cor, o feltro e as telas duplas, mantendo a mesma assinatura que nos leva imediatamente a reconhecer sua obra”, afirma Vilma.


 


Ainda nas palavras de Camila, a exposição espelha as múltiplas perspectivas pelas quais Germana observa as dimensões da vida. “Nas pinturas maiores, as formas lembram caminhos de rios sobre um terreno acidentado e rochoso, assemelhando-se a detalhes de mapas topográficos. A artista, que busca, desde o início de sua trajetória, modos de traçar linhas sobre o plano delimitando áreas de cor e matéria, encontrou uma nova forma de transposição de sua poética do papel para um espaço tridimensional criado sobre a superfície”, analisa.


 


Germana segue abrindo novos caminhos em sua sofisticada e engenhosa geografia criativa. “As formas que eu criava eram acompanhadas de sombras, que eu fazia na própria pintura. Agora, utilizo duas telas sobrepostas e essas sombras surgem em uma das camadas de forma concreta”, explica.


 


SOBRE GERMANA MONTE-MÓR


A artista plástica nasceu no Rio de Janeiro, em 1958, e vive em São Paulo desde 1983. É desenhista gravadora, pintora e escultora. Formou-se em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em Gravura pela Escolinha de Arte do Brasil e em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP. Em 2002, concluiu o mestrado em Poéticas Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. Em 1989, recebeu a bolsa Ateliê II da Oficina Cultural Oswald de Andrade e o prêmio aquisição no 1º Prêmio Canson, do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM. Em 2004, ganhou a Bolsa Vitae de Artes, da Fundação Vitae. A busca por novos materiais é uma característica marcante da artista. Em sua trajetória, participou de importantes exposições coletivas e individuais em galerias e instituições renomadas, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Paço Imperial (RJ) e o Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto (SP). Suas obras integram coleções particulares e acervos célebres, como, entre outros, o da Fundação Biblioteca Nacional (RJ), do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), o do Itaú Cultural (SP) e o da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS).


 


SOBRE CAMILA BECHELANY


 


Camila Bechelany atua como pesquisadora, crítica e curadora. Em 2020, foi curadora da exposição Lugar Comum Mostra 3M de Arte, SP com comissionamento de 10 obras para o espaço público. No mesmo ano foi residente do BAR Project em Barcelona e participante do programa de jovens curadores da ARCO Madrid. Em 2019, foi curadora do programa de residência Pivô Pesquisa (SP). Foi integrante do grupo de críticos de arte do Centro Cultural São Paulo entre 2018 e 2019. Foi curadora convidada na Pinacoteca do Estado de São Paulo em 2019 e, entre 2016 e 2018, curadora assistente no Masp, onde trabalhou, entre outras, nas mostras Histórias da sexualidade, Avenida Paulista e Guerrilla Girls. Entre seus projetos independentes estão Parques e outros pretextos (galeria Mendes Wood, 2019); Museu Vivo (Centro Pompidou, Paris, 2016) e a criação do espaço independente La Maudite em 2013. Foi participante bolsista do ICI, NY, em 2012. É mestre em Antropologia Cultural pela EHESS de Paris e em Artes e Políticas Públicas pela Universidade de Nova York (NYU).


 


SOBRE A GALERIA ESTAÇÃO


Com um acervo entre os pioneiros e mais importantes do país, a Galeria Estação foi inaugurada no final de 2004 por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp e consagrou-se por revelar e promover a produção de arte brasileira não erudita. A sua atuação foi decisiva pela inclusão dessa linguagem no circuito artístico contemporâneo ao editar publicações e realizar exposições individuais e coletivas sob o olhar dos principais curadores e críticos do país. O elenco, que passou a ocupar espaço na mídia especializada, vem conquistando ainda a cena internacional ao participar, entre outras, das exposições Histoire de Voir, na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain (França), em 2012, e da Bienal Entre dois Mares – São Paulo | Valencia, na Espanha, em 2007. Emblemática desse desempenho internacional foi a mostra individual Veio – Cícero Alves dos Santos, em Veneza, paralelamente à Bienal de Artes, em 2013. No Brasil, além de individuais e de integrar coletivas prestigiadas, os artistas da galeria têm suas obras em acervos de importantes colecionadores brasileiros e de instituições de grande prestígio e reconhecimento, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Afro Brasil (São Paulo), o Pavilhão das Culturas Brasileiras (São Paulo), o Instituto Itaú Cultural (São Paulo), o Sesc São Paulo, o MAM Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o MAR, na capital fluminense.


 


(SERVIÇO)


 


EXPOSIÇÃO GERMANA MONTE-MÓR


Curadoria: Camila Bechelany


Quando: 4/10 a 5/11


Onde: Galeria Estação | Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros


Horários de funcionamento da galeria: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos


Telefone: (11) 3813-7253
Email: contato@galeriaestacao.com.br


Site: www.galeriaestacao.com.br


Instagram: @galeriaestacao


 


Informações para imprensa


Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo


baoba@baobacomunicacao.com.br


 


 

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