BIOGRAFIA

José Bernnô [José Norberto de Mattos]

1946, São Paulo | SP- Brasil

2009, São Paulo | SP - Brasil

 

Matéria calcinada

Por Marco Giannotti

Quem teve o privilégio de conhecer José Bernnô com certeza o definiria como uma personalidade solar. Fui seu professor e sobretudo amigo. No ano de seu falecimento, passou o réveillon com minha família. Em dias de forte calor e chuva, sua principal diversão foi ensinar meus filhos a fazer pipas. Nada mais coerente para quem sempre gostava de fazer a cor decolar. Quem teve o privilégio de conhecê-lo também sabia que ele era uma pessoa esquentada, um vulcão emotivo prestes a explodir a qualquer momento.

Torna-se artista não na sala de aula, mas no Bairro do Limão. Foi ali que descobriu que poderia aliar a experiência de pintor automotivo com a de pintor de quadros. Às 18 horas fechavam-se as portas e o artista despertava madrugada afora. Não é à toa que sua exposição mais contundente em vida foi na própria oficina. Bernnô soube aliar suas inquietações contemporâneas ao espírito comunitário. Sempre participou das atividades do seu bairro, chegou a realizar as alegorias para a escola de samba Mocidade Alegre. O pintor do Limão nos faz lembrar do pintor do Cambuci, Volpi. Como ele, realizou no início da carreira afrescos decorativos. O teto de sua sala, em um conjunto habitacional, nos levava ao mundo onírico da pintura italiana e seus grotescos.

 As pinturas selecionadas para esta exposição são o registro de uma personalidade forte. De imediato o que vemos são pinturas de superfícies cromáticas intensas entrecortadas de maneira lancinante. A fatura é exacerbada e instigante. Bernnô soube fazer uma alquimia entre a pintura a óleo e as resinas alquídicas utilizadas para fins automotivos. Quando estudava na Escola de Belas Artes de São Paulo chegou a fazer pintura personalizada para automóveis. Talvez por isso é que sua paleta nos faz lembrar da época em que os carros ainda tinham cor: Brasília amarela, Corcel azul, Variant bege etc. Soube fazer da cor emoção: podemos ver em suas pinturas um fragmento de amarelo angustiado, noutra parte um azul apaixonado, noutro canto um laranja entristecido. A matéria pictórica aparenta ter passado por um processo de calcinação ao ser submetida ao calor intenso de um forno industrial. Formas geométricas se reconfiguram nesse processo e assumem um aspecto orgânico, rochoso. Aludem ao magma, que, ao esfriar em contato com a terra, apresenta veios líquidos das mais variadas formas. As figuras parecem surgir a partir da matéria vulcânica.

Evocar uma pintura calcada à superfície pode soar como jargão modernista. Mas o fato é que Bernnô faz desse mote razão de ser. Se buscarmos uma referência, certamente a obra de Clifford Still é basilar. Suas pinturas em larga escala, com um cromatismo imponente, formas orgânicas que se chocam, influenciaram muitos artistas do expressionismo abstrato. Talvez sua contribuição mais importante para esse grupo tenha sido o “all over”, uma composição que rompe com a relação clássica de figura e fundo. A pintura se desvela como um espaço contínuo, onde o enquadramento aparece como um recorte de um lugar mais amplo. De maneira intuitiva Bernnô assimilou essas características em sua obra. Ele não é um artista que busca uma pintura tonal refinada, como Paulo Pasta, artista e professor importante na sua formação. Aliás, talvez tenha sido influenciado pela sua pintura inicial, onde a superfície mais bruta era feita ao ­escavar a matéria oculta. Um vestígio azul aflora numa superfície vermelha. Mas, em vez de evocarem um passado longínquo, são cores do mundo, dos cartazes, automóveis, utensílios. Surge daí uma pintura calcada na superfície da tela de maneira obstinada. Não temos acesso à trama da tela, pois ela foi efetivamente calcinada por um revestimento imune à agua e às novas marcas do tempo. Embora as cores gritantes nos levem a pensar em Van Gogh, a pintura não é feita com pinceladas que carregam a cor pura recém-saída de um tubo de tinta. O gesto se esconde nas superfícies laminadas.

Suas pinturas resistem à palavra, denotam até um certo brutalismo que nos faz pensar nas estruturas pintadas de vermelho que sustentam o MASP. Colocam-se no espaço sem timidez. Como no concreto armado, exibem as marcas do seu processo de fundição. Crostas emergem desse magma. Curiosa alquimia na qual a pintura a óleo perde seu aspecto óptico e adquire massa graças aos complementos alquídicos. O processo construtivo em muito se assemelha ao processo da colagem, método compositivo que é determinante na maneira de articular imagens a partir do século XX. Em um momento importante de sua formação ele chegou a pintar em caixas desmontadas de papelão. Nesse caso, os recortes se agrupam fortuitamente e criam uma sensação de unidade maior do que a soma das partes. Campos cromáticos assumem um aspecto de figura quase por acaso, de modo que passamos a imaginar uma geometria que volta a se encontrar com o espaço do mundo. Por esse motivo não encontramos nem linhas retas nem quadrados perfeitos em sua pintura. As hastes verticais que aparecem de vez em quando nos fazem lembrar os postes corroídos pelo tempo e que estão prestes a cair após um temporal. As marcas do horizonte não nos levam ao mundo sublime, são como as simples marcas feitas com esmalte em uma oficina mecânica para evitar a sujeira. Bernnô celebra assim a riqueza do mundo comum, onde qualquer um pode participar, entrar em sua oficina e tomar uma cerveja.

Tudo parece estar um pouco fora da ordem: linha, cor, a matéria bruta. O belo advém desse estranhamento criado entre o popular e o erudito. Nesse sentido, a exposição que se inaugura na Galeria Estação me parece muito apropriada, pois justamente neste lugar é que a arte popular brasileira é apresentada lado a lado com artistas relevantes do nosso cenário. No caso de Bernnô, não caberia uma comparação com outro artista popular, pois ele busca incorporar esses dois mundos distintos. Figura singular, tentava conciliar os mundos opostos da Zona Norte e da Zona Sul de São Paulo.

Certa vez Eduardo Sued comentou que o problema do amarelo é que trata-se de um sujeito muito alegre e aberto, mas logo se torna uma visita incômoda na casa. Bernnô convive muito bem com essa cor. Quando vemos um amarelo em sua pintura sentimos um prazer especial ao evocar sua personalidade solar. Poucos artistas efetivamente souberam utilizar tão bem essa cor em uma cidade como São Paulo. Embora o cinza seja a cor mais atribuída a nossa cidade, o fato é que temos uma metrópole permeada pelo vermelho do tijolo baiano, pela cal do pó xadrez nas fachadas, pelos  azulejos quebrados, pelos cartazes coloridos colocados de modo precário nas avenidas.

Ensinada nas escolas, a cor parece um fenômeno imaterial, um prisma virtual lançado no escuro. Entretanto, a cor efetivamente está ligada ao seu meio material. Na arte moderna a escolha de determinadas técnicas é um ato expressivo, a matéria pictórica torna-se expressiva. Ao final do século XIX, a introdução de corantes e pigmentos  criados a partir de processos químicos produziu uma enorme transformação na paleta do pintor, que passa a conter cada vez mais cores artificiais. As cores aplicadas na pintura se distanciam cada vez mais das cores locais, são signos que formam uma linguagem autônoma. A procura por uma nova composição pictórica fez com que os artistas se apoiassem em teorias cromáticas como as de Goethe, Chevreul, Ostwald. Os artistas buscam certas medidas ideais que revelariam uma natureza oculta, ideal, suprema. As cores para o artista são antes abstrações do nosso espírito. Surge daí um simbolismo hermético, distante da representação da natureza. Boa parte dos experimentos cromáticos foi realizada com pedaços coloridos de pano ou de papel. Não por acaso, a colagem surge efetivamente como uma prática artística no século XX. As portas se abrem para uma pintura abstrata pautada numa geometria cromática, grades e círculos. A figura e o espaço circundante são construídos a partir de diversos planos cromáticos, pincelada e cor se fundem num gesto expressivo. Nesse caso, as cores efetivamente desempenham um papel ativo no espaço pictórico, visto que a interação entre os campos proporciona uma sensação expansiva da cor. Nesse processo de distanciamento em relação à “realidade exterior” o pintor se identifica muitas vezes com um ser capaz de tudo criar ou destruir no momento seguinte. Esse fenômeno está descrito com precisão em um conto célebre de Balzac, “A obra-prima ignorada” – aliás, um dos contos preferidos de Cézanne. Frenhofer é um pintor que acaba enlouquecendo ao buscar a obra-prima, mas que consegue apenas retratar um pequeno pé feminino no meio de um amontoado de manchas. A pintura se transforma em uma muralha abstrata, não há profundidade, apenas tinta aplicada na superfície da tela.

Podemos notar aqui como tanto o artista do Cambuci como o do Bairro do Limão absorveram a singularidade da pintura moderna com muita propriedade, embora com faturas radicalmente distintas. Ambos chamam atenção pelo aspecto rústico de suas construções. Se um nos faz pensar nas paredes sutilmente caiadas, o outro nos leva para a superfície ríspida do concreto armado. Joviais, vibrantes, alegres e às vezes taciturnas, o fato é que as pinturas de Bernnô destoam pela sua singularidade. Não vemos pintura semelhante ser feita em São Paulo. Nem figurativas nem totalmente abstratas, nem datadas nem fora do tempo. Antes, resistem às intempéries e continuam a vibrar. Verdadeiro romântico, Bernnô levou a vida ao limite. Passou em ritmo alucinado por aqui e, quem sabe, continua a viajar como um cometa prestes a causar terremotos ao colidir com outros planetas. Mas o que importa de fato agora é que mediante estas pinturas podemos presenciar fragmentos de uma vida intensa.

 

CV

Exposições Individuais: 


2016 José Bernnô, Galeria Estação, São Paulo, SP, Brasil


2008 Estúdio Buck, São Paulo, Brasil


2006 Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), Ribeirão Preto, Brasil


2005 Oficina ONIX Funilaria e Pintura, São Paulo, Brasil


2004 Oficina de Funilaria e Pintura, Curadoria Pedro Lopes, São Paulo, Brasil


2004 Inaugural Oficina Virgilio. Orientadores: Marco Giannotti, Osmar Pinheiro, São Paulo, Brasil


 


Exposições Coletivas:


2007 Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil


2007 Escola São Paulo, curadoria Juliana Monachesi, São Paulo, Brasil


2007 Museu de Arte de Ribeirão Preto (Centro Empresarial), Ribeirão Preto, Brasil


2007 11º Salão de Arte Contemporânea de São Bernardo do Campo (Prêmio Aquisição), São Paulo, Brasil


2007 35º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (Santo André), São Paulo,Brasil


2006 “Passagem em Permanência” Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, Brasil


2006 11º Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo, Brasil


2005 30º SARP Museu de Arte de Ribeirão Preto (Prêmio Aquisição), Ribeirão Preto, Brasil


2005 Instalação - Projeto “A Torre”, Ateliê 397, São Paulo, Brasil


2004 Instituto Tomie Ohtake. curadoria Paulo Pasta, São Paulo, Brasil


2004 Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), São Paulo, Brasil


 


Coleções Públicas:


Belas Artes de SP, Museu de Arte de Ribeirão Preto, João Carlos F. Ferraz, Mario C. Carvalho, Prefeitura de São Bernardo do Campo, SP, Brasil


 


Publicações Selecionadas:


2016 Catálogo exposição, "Bernnô" , Galeria Estação, Lis Gráfica, São Paulo, SP, Brasil


 

EXPOSIÇÕES

encerrado

SP Arte 2017

05.04.2017 - 09.04.2017
encerrado

SP Arte 2016

06.04.2016 - 10.04.2016
encerrado

SP Arte 2018

11.04.2018 - 15.04.2018
encerrado
são paulo

José Bernnô

19.05.2016 - 30.06.2016
encerrado

ArtRio 2018

27.09.2018 - 30.09.2018
encerrado
rio de janeiro

ArtRio 2016

29.09.2016 - 02.10.2016

VIDEOS

Documentário José Bernnô (José Norberto de Mattos)
Um perfil do artista plástico José Bernnô, paulistano do bairro do Limão, que através do domínio das...
Documentário