BIOGRAFIA

Elza [Elza de Oliveira Sousa]

1928, Recife | PE – Brasil

2006, Rio de Janeiro | RJ - Brasil

Em 1946, transfere-se para o Rio de Janeiro com seu marido, Gerson de Souza, também pintor, exercendo o ofício de bordadeira e estudando teatro, balé aquático e canto lírico. Frequenta o curso de pintura de Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1962 e 1963. Neste mesmo ano, começa a expor numa coletiva organizada pela galeria do IBEU; e no Salão Nacional de Arte Moderna, em 1969, conquista Isenção de Juri.

Expõe individualmente na Galeria Atualidade, Rio de Janeiro, 1964; Clube Hebraica, em 1967, além das galerias Astréia e Jacques Ardies, São Paulo. Participa da mostra Lirismo Brasileiro, que percorre Portugal, França e Espanha, coordenada por Ruth Laus, que assim se exprime sobre ela: “Elza evoca um universo romântico, com noivas, sereias, crianças e anjos adultos, esguios, fugindo à linha rechonchuda dos anjinhos barrocos tão vistos nas antigas igrejas brasileiras”.

Fonte: Catálogo - POP BRASIL: A arte popular e o popular na arte | CCBB - Gama, 2002

 

Uma alma de artista

“Conheci Elza há algumas décadas, quando, casada com o pintor naïf Gerson  Alves de Souza, ela dava seus primeiros passos na pintura. Eu ia com freqüência à casa deles para selecionar e adquirir quadros de Gerson, pelos quais era apaixonado, como aliás ainda sou. Foi durante uma dessas visitas que  Elza me puxou para um canto e disse que estava se dedicando seriamente à pintura, mostrando os seus primeiros quadros. Encorajada pelo marido, ela se lançava nessa nova atividade com toda a impetuosidade da trabalhadora incansável que sempre foi. Já em Recife, onde nasceu em 1928, filha mais velha de oito irmãos, Elza cozinhava, lavava e passava. Sua mãe, parteira diplomada, dizia: “Minha filha é meus pés e minhas mãos”. Apesar do trabalho doméstico duro, Elza sempre exercia outras atividades que lhe rendiam algum dinheiro: alfabetizava crianças em casa, dava aulas particulares e bordava enxovais de bebê, lençóis, toalhas. Enquanto lavava roupa, cantava e chamava atenção por sua voz de soprano. Chegou a procurar o Conservatório de Música do Recife e passar num teste para a Rádio Clube, mas o pai proibiu a sua carreira musical. Só muito mais tarde, já casada e morando no Rio de Janeiro, estudou canto lírico por algum tempo. Casou-se muito cedo, aos dezesseis anos, “numa paixão de Romeu e Julieta”, conta Elza. Até porque o pai era contra o casamento. Gerson, seu namorado, era empregado da Western e entregava  telegramas. Foi preciso roubar a certidão de nascimento e arranjar amigos para testemunhar o casamento com Gerson no cartório. Depois, voltar para casa e esperar passar a raiva do pai.Só foram morar juntos depois do nascimento da filha.Isso nos dá uma idéia da força de vontade dessa mulher passional.

Vindo para o Rio de Janeiro em 1948, Elza voltou a bordar para ajudar nas despesas do casal. Fez curso de cabeleireira e passou a atender pessoas em casa. Quando a conheci, havia um grande secador de pé no meio da sala. Curiosa e interessada em tudo, respondeu a um anúncio pedindo moças para um balé aquático que era ensaiado no Hotel Glória. “Sinto que nasci para fazer arte, afirma Elza. Desde pequena notava que era diferente das minhas irmãs. Só não sabia ainda onde iria me expressar melhor”. Enquanto isso, Gerson, seu marido, se afirmava como pintor naif, começava a expor e a ter seus trabalhos aceitos nos Salões Nacionais realizados a cada ano. Elza começou pelo desenho. Desenhava para passar o tempo, para esperar o marido chegar. Um dia pensou: “se eu puser cor nos desenhos que faço, isso vai virar pintura”. Pediu a Gerson que lhe comprasse telas,tintas e pincéis e lhe ensinasse os rudimentos da técnica. Ele então sugeriu que Elza levasse seus trabalhos para mostrar a Ivan Serpa, pintor de renome que dava um curso livre de pintura no Museu de Arte Moderna. Ela freqüentou o curso durante um ano. De início a pintura de Elza sofreu uma forte influência de Gerson, que pintava em casa, bem ao seu alcance. A dramaticidade de algumas obras dessa época, já anunciava, pela potência concentrada, todo o potencial da futura artista. A dureza  e a força desses primeiros quadros revelam com certeza toda a garra para extrair de dentro de si aquilo que ela sabia possuir.  Logo depois seus temas foram se apaziguando, tornando-se mais suaves. Pouco a pouco, como todo naif autêntico, passou a transpor para suas telas apenas aquilo que tinha no coração. Em pouco tempo, graças a sua forte personalidade, Elza libertou-se da influência de Gerson, para se afirmar cada vez mais na sua maneira peculiar de pintar. Se Elza herdou alguma coisa de Gerson de seu começo de carreira, por certo é a atração que tem pela figura humana. A maior parte de seus quadros representa o indivíduo, em todas as situações e circunstâncias possíveis. Na pintura, Elza encontrou afinal sua vocação. “Só faço as coisas com muito amor”, diz Elza. “Quero que a pessoa ao ver um trabalho meu, perceba a “alma” dele. Eu sinto como vai ser o quadro na hora de pintar. Cada quadro meu é sentido antes de ser pensado. Vou me entregando ao que sente enquanto a mão trabalha.” Depois de um trabalho obstinado, seu inegável talento começou a surgir. A partir desse momento, Elza progrediu consideravelmente. Dia a dia sua pintura melhorava. Sem se deter nos primeiros sucessos, continuou a pintar sem descanso, desde a manhã bem cedo, até o fim do dia. À procura do dom para  a pintura que estava certa de possuir e que almejava descobrir. E descobriu. Foi como uma explosão: com uma velocidade vertiginosa, Elza se tornou uma grande artista com uma concepção toda pessoal.

Divorciada de Gerson depois de longo casamento, Elza continuou a pintar com uma dedicação ainda maior. Artista sem limite, ela pode pintar de tudo: desde os jogos infantis, passando pelas cabeças de Cristo, casais de apaixonados, jovens noivas com véus brancos de transparência e leveza sem igual, até dezenas de outros temas cada qual mais variado e original que o outro. Todos os personagens são marcados pela personalidade dessa artista com um estilo diferente de todos. Os rostos são tão personalizados que têm um certo ar de família, nem que seja pelo olhar, que lembra o olhar da própria Elza. Os rostos revelam um desenho perfeito, mas sobretudo possuem cores únicas na pintura naif brasileira. Essas cores – que poderíamos chamar de “cores de Elza” – são diáfanas, chegando até à transparência. Na minha opinião, é nisso que Elza atingiu a perfeição como artista naif. Elza expôs por toda parte do Brasil e nos principais países do mundo, onde sua pintura de tons discretos e nuançados é muito apreciada. Seus quadros constituem um dos exemplos mais verdadeiros do autêntico desabrochar da pintura naif, com toda a sua candura e sua preocupação com o detalhe. Às vezes me pergunto até onde Elza quer ou pode ainda chegar. Porque ela continua a pintar, com o mesmo entusiasmo do começo de sua carreira, quadros cada vez mais belos. Depois de todos esses anos de luta, de “garra” para pintar, de tenacidade, de força de vontade, de coragem, e graças a todo o amor que seu imenso talento faz transbordar de seus quadros, é incontestável que Elza tornou-se, hoje, a grande dama da pintura naif brasileira.

Lucien Finkelstein

CV

Exposições Individuais:


1979 Individual, Galeria Tempo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1975 Individual, Galeria Astréia, São Paulo, SP, Brasil


1972 Individual, Galeria do Banco Ítalo-Belga, Porto Alegre, RS, Brasil


1971 Individual, Galeria Alberto Bonfiglioli, São Paulo, SP, Brasil


1971 Individual, Galeria Sobrado, São Paulo, SP, Brasil


1971 Individual, Zimmer Galerie, Dusseldorf, Alemanha


1971 Individual, Galeria Eucatex, São Paulo, SP, Brasil


1971 Individual, Salão Negro do Senado Federal, Brasília, DF, Brasil


1970 Individual, Mini Galeria da Usis, São Paulo, SP, Brasil


1970 Individual, Galeria Oca, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1969 Individual, Casa Holanda, Recife, PE, Brasil


1969 Individual, Galeria do Rosário, Recife, PE, Brasil


1967 Individual, Galeria Giro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1967 Individual, Clube Hebraica, São Paulo, SP, Brasil


 


Exposições Coletivas:


2005 Encontros e Reencontros na Arte Naif: Brasil-Haiti, Museu De Arte Brasileira, MAB-FAAP, São Paulo, SP, Brasil


2004 Arte Naif, Galeria Jacques Ardies, São Paulo, SP, Brasil


2002 6ª Bienal Naifs do Brasil, SESC, Piracicaba, SP, Brasil


2002 Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte, CCBB, São Paulo, SP, Brasil


2000 Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento Pavilhão da Bienal, São Paulo, SP, Brasil


1994 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif, SESC, Piracicaba, SP, Brasil


1988 O Mundo Fascinante dos Pintores Naïfs, Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1982 Futebol: interpretações, Galeria de Arte Banerj, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1981 4º Salão Nacional de Artes Plásticas, MAM/RJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1980 Gente da Terra, Paço das Artes, São Paulo, SP, Brasil


1979 4ª Exposição de Belas Artes Brasil/Japão, Fundação Mokiti Okada, São Paulo, SP, Brasil


1977 3ª Exposição de Artes Brasil/Japão, São Paulo, SP, Brasil


1977 3ª Exposição de Belas Artes Brasil/Japão, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1975 Festa de Cores, MASP, São Paulo, SP, Brasil


1973 Feira Brasil Export, Bruxelas, Bélgica


1972 Arte/Brasil/Hoje: 50 anos depois, Galeria da Collectio, São Paulo, SP, Brasil


1970 19º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1970 3º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, Paço Municipal, Santo André, SP, Brasil


1969 18º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1968 17º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1968 Lirismo Brasileiro, Lisboa, Portugal


1967 16º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1967 3º Salão de Arte Religiosa Brasileira, Londrina, PR, Brasil


1966 15º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1965 14º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1964 13º Salão Nacional de Arte Moderna, MAM/Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


 


Coleções Públicas:


Museu de Arte Moderna – MAM, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Museu de Arte de São Paulo – MASP, São Paulo, SP, Brasil


 


Publicações Selecionadas:


2002 POP Brasil | A Arte popular e o popular na Arte, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, SP, Brasil


2000 Mostra do Redescobrimento- Brasil 500 anos, Arte Popular, Takano Editora, Brasil


1998 A Arte Naif no Brasil, Jacques Ardies, Empresa das Artes, São Paulo, SP, Brasil


1994 Bienal Brasileira de Arte Naif. Abram Szajman, Danilo Santos de Miranda e Jorge Anthonio da Silva, SESC, Piracicaba, SP, Brasil


1988 Dicionário crítico da pintura no Brasil, José Roberto Teixeira Leite, Artlivre, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1978 Aspectos da pintura primitiva brasileira, Flávio de Aquino, Ed. Spala, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


1975 Festa de cores, Pietro Maria Bardi, MASP, São Paulo, SP, Brasil


1969 Dicionário das artes plásticas no Brasil, Roberto Pontual, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

EXPOSIÇÕES

encerrado
são paulo

Mulheres na Arte Popular

09.03.2020 - 09.05.2020

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