em cartaz
28.04.2026 a 11.07.2026
Galeria Estação Endereço: Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros-SP | São Paulo - Brazil

CENOGRAFIA

INTRODUÇÃO

Navegante Tremembé 

Conhecer a Navegante foi um momento para eu me lembrar de que a criação de algo novo, diferente, pode mesmo estar em qualquer lugar.

Com o advento das redes sociais e a disseminação do telefone celular, todos, todos, incluindo artistas autodidatas de lugares distantes e menos povoados, produzem, recebem e distribuem um volume imenso de informações. Isso, pensei eu, diminui a possibilidade de encontrar, ainda, a pureza, a originalidade e a beleza espontânea.

Ao conhecer a Navegante, levada pelo Pedro, galerista cearense, minha fé foi renovada! Indígena nascida no Ceará, a artista criou arte usando pigmentos naturais extraídos dos orifícios de uma matéria que os ciés, pequenos crustáceos, deixam na sua passagem.

Não vou contar mais. Vou convidá-los a ver a primeira exposição de Navegante Tremembé em São Paulo e a encantar-se com seu trabalho, assim como eu me encantei.

curador

“Memórias da terra” 


A idade da cor


Navegante Tremembé nasceu em 1960, no aldeamento indígena Varjota, localizado em Itarema, interior do Ceará. Há mais de 40 anos, ela produz as suas pinturas com o toá, que é uma técnica ancestral indígena feita com pigmento natural colhido no solo do seu território originário, formado entre o mangue, o lagamar e o rio Aracati-Mirim.


O toá é uma areia colorida remanescente de camadas geológicas formadas há bilhões de anos na Terra, durante os períodos Paleozoico, Mesozoico, Cenozoico e Holoceno, entre outros. A partir de uma mistura de diversos componentes químicos, como óxido de ferro, caulim e sílica, cada um desses períodos formou sedimentações de diferentes cores. Por isso, o toá é encontrado naturalmente nas cores amarelo, vermelho e branco, que constituem as suas cores primárias. Posteriormente, a partir da mistura entre as cores primárias e a adição do pó do carvão mineral, a artista consegue criar as suas cores secundárias: laranja, verde e azul.


O processo de feitura das pinturas de Navegante inicia antes da tela. Tudo começa com a coleta do toá em seu território indígena. Com a ajuda do cié, que é um pequeno crustáceo do mangue, a artista consegue encontrar o pigmento no solo a partir de uma relação interespécie entre humanidade indígena, vida animal e geologia. Todo o processo faz parte da sua obra, desde a observação atenta aos sinais da paisagem, a escavação da superfície, a escolha do sedimento, até a lavagem, decantação e preparo da tinta. O seu processo é uma alquimia que envolve uma técnica complexa e um saber ancestral transmitido de geração em geração.


Atualmente, o território originário de Navegante está sendo disputado por empresas de monocultura e por grupos organizados, que derrubaram árvores e instalaram cercas ao redor do mangue, gerando transformações na paisagem mobilizadas pela ganância do capitalismo neoliberal. Essa devastação ambiental tem provocado o extermínio da fauna e da flora locais, desde a extinção de árvores e plantas nativas até o desaparecimento de pássaros e outros animais. Em suas telas, Navegante pinta essas árvores e pássaros como uma forma de denúncia da colonialidade. Por isso a sua pintura é política: porque registra, preserva e eterniza aquilo que está em vias de desaparecer.


As suas telas misturam experiências pessoais, cosmologia tremembé, memórias e imaginação, para formar composições oníricas com uma figuração sintética, uma economia do espaço e uma geometria indígena. Portanto, a pintura de Navegante não é uma mera reprodução da técnica do toá, mas sim uma constante experimentação e reinvenção da tradição.


A matéria do toá (formada antes da humanidade) carrega memórias muito antigas do planeta, é uma relíquia arqueológica de um tempo sem a existência colonizadora da humanidade. Por isso, as suas pinturas são arquivos da Terra, elas guardam saberes e mistérios do planeta que podem nos ensinar alternativas para enfrentar o colapso climático e a crise ambiental. Em suas obras, não vemos a presença predatória do humano, mas sim a liberdade da paisagem, onde os diversos modos de vida se interconectam em uma íntima ecologia. A sua pintura suspende o tempo e nos teletransporta para um passado sem a humanidade ou para um futuro em estado de regeneração.


 


Lucas Dilacerda


Curadoria, AICA – International Association of Art Critics

RELEASE

Com abertura em 28 de abril, a exposição Memórias da terra, primeira individual da artista indígena Navegante Tremembé na cidade de São Paulo, ocupa a Galeria Estação, em Pinheiros, e permanece em cartaz até 11 de julho, com curadoria de Lucas Dilacerda. Nome artístico de Maria de Fátima Andrade de Sousa, Navegante nasceu em 1960 na Aldeia Varjota, em Itarema, no litoral oeste do Ceará, e há quase 40 anos produz sua arte como guardiã dos saberes e fazeres de seu povo.


Ainda jovem, a artista aprendeu com sua vizinha Maria Rosa Tremembé a técnica do toá, um pigmento natural de uso ancestral dos indígenas Tremembé. Na contramão dos processos industriais de produção de tintas, o toá é uma areia colorida que Navegante coleta no solo de seu território originário, entre o mangue, o lagamar e o rio Aracati-Mirim. Esses pigmentos são formados por camadas geológicas formadas ao longo de bilhões de anos na Terra, nos períodos Paleozoico, Mesozoico, Cenozoico e Holoceno.


"Conhecer a Navegante me fez lembrar de que a criação de algo novo, diferente, pode estar em qualquer lugar", afirma Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação. "Com o advento das redes sociais e a disseminação do telefone celular todos – incluindo artistas autodidatas de lugares distantes e menos povoados – produzem, recebem e distribuem um volume imenso de informações, algo que diminui drasticamente a possibilidade de encontrar a pureza, a originalidade e a beleza espontânea. Ao conhecer a Navegante, minha fé foi renovada", defende Vilma.


Reunindo cerca de 20 pinturas – que, em comum, têm o uso singular da técnica “toá em tela” – a exposição Memórias da terra, que contará com a presença da artista na abertura da mostra, também reflete o universo de Navegante a partir de títulos como Estrela imaginada, Pé de pau-ferro, Sabiás no pé de mofumbo, Bem-te-vis no mangue na beirada do rio e Pé de mangue do Lagamar, entre outros.    


Guardiã para o futuro


Com a morte de Maria Rosa, Navegante tornou-se a última detentora da técnica do toá em sua aldeia. Atualmente, ela ensina o saber a crianças e adolescentes da comunidade, garantindo que a tradição não se perca. A arqueóloga Marcélia Marques, que desenvolveu uma longa pesquisa sobre o território da artista, defende que a sobrevivência do toá nos dias atuais é uma das maiores evidências na luta pela demarcação da terra indígena Tremembé, uma vez que o território de onde Navegante colhe o pigmento está em disputa. Empresas de monocultura e grupos organizados têm derrubado árvores e instalado cercas ao redor do mangue, provocando transformações na paisagem e ameaçando a fauna e a flora locais. Não por acaso, em suas telas, Navegante pinta justamente árvores e pássaros – além de cajus, peixes, canoas e outros elementos que compõem a cosmologia e o cotidiano Tremembé.


"Os saberes ancestrais da Navegante são políticos porque eles afirmam a continuidade de um mundo historicamente atacado, silenciado e colocado em risco", reitera Lucas Dilacerda. "O meu primeiro contato com sua obra não foi um encontro com imagens, foi um encontro com um tempo muito mais antigo do que o nosso. Quando utiliza o toá, Navegante não está apenas escolhendo um material, está ativando um conhecimento que atravessou gerações e que depende diretamente da existência do território para continuar existindo. Se a terra desaparece, o saber desaparece junto. Por isso, cada pintura é também uma afirmação de existência", complementa o curador.


 


Processos naturais


A coleta do material colhido por Navegante também envolve uma relação intrínseca com o cié, um pequeno crustáceo do mangue que escava a superfície do solo e, ao deixar seus orifícios, ajuda a localizar os depósitos de sedimento colorido. Ao observar os sinais  do cié na paisagem, a artista escava a superfície, escolhe o sedimento e então realiza a lavagem, a decantação e o preparo da tinta. As cores primárias do toá são amarelo, vermelho e branco. Com a adição de pó de carvão mineral, Navegante obtém as cores secundárias: laranja, verde e azul. Da observação atenta do território até a finalização da pintura na tela ou no papel, todo esse processo faz parte de sua obra.


"Gosto de conhecer o hábitat dos artistas", diz Vilma, que visitou a casa da artista a convite de Dilacerda, depois de conhecer o trabalho de Navegante por recomendação de Pedro Diógenes, fundador da Cave, galeria de arte brasileira baseada em Fortaleza. "Em uma viagem que fiz ao Ceará em 2025 para conferir o Festival Sérvulo Esmeraldo, tirei uns dias a mais para fazer minhas pesquisas de campo e fiquei encantada com a Navegante, uma pessoa simples que, por outro lado, tem um domínio rigoroso de seu trabalho. Depois de todo o processo que envolve a técnica da toá, quando decide iniciar uma nova pintura, ela se fecha em seu quarto e não quer que ninguém fale com ela até que tudo esteja pronto", explica a galerista.


Dilacerda, que é filiado à AICA (International Association of Art Critics) e curador da Bienal Internacional do Sertão, conheceu a obra de Navegante durante uma pesquisa dedicada a mapear artistas do Norte e Nordeste do Brasil, e destaca o longo período de invisibilidade da artista. No texto curatorial da mostra, ele aponta que as imagens produzidas por ela funcionam como registro e denúncia da colonialidade, ao mesmo tempo em que eternizam algo que estava fora do radar da arte contemporânea.


"Estamos falando de alguém que há quase 40 anos produz uma obra consistente, rigorosa, enraizada em um saber ancestral complexo, e que, ainda assim, permanecia completamente à margem do circuito das artes visuais", diz o curador. "Esse encontro produziu um forte incômodo em mim, porque revelou que o problema não estava na obra, mas no sistema. Foi aí que a curadoria deixou de ser apenas um exercício estético e passou a ser, necessariamente, um gesto político. Não se trata apenas de inserir uma artista no circuito. Trazer a obra da Navegante para a Galeria Estação é também um gesto de reparação. É afirmar que esses 40 anos não são um atraso, mas um acúmulo."


Nesse sentido, a trajetória da artista teve um “marco zero” de visibilidade institucional a partir de seu destaque na edição de 2025 do Prêmio PIPA, a mais relevante premiação de arte contemporânea do Brasil. A indicação, concretizada sobretudo graças aos esforços de Dilacerda, inseriu a produção de Navegante no debate nacional, desafiando a visão que reduz a arte indígena a artesanato. Hoje, obras da artista integram importantes acervos como o do Museum of African Contemporary Art Al Maaden (MACAAL), em Marrakech,  e chegam agora ao público da Galeria Estação. 


"Para além do impacto de sua obra, me emocionou ver como o talento e a criatividade dela operam como guardiões da expressão artística ancestral de seu povo. Fica, então, o convite a todos para a primeira exposição de Navegante Tremembé em São Paulo e a encantar-se com seu trabalho, assim como eu me encantei", conclui Vilma Eid.


 


Sobre a Galeria Estação


Com um acervo entre os pioneiros e mais importantes do país, a Galeria Estação, inaugurada no final de 2004 por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp, consagrou-se por revelar e promover a produção de arte brasileira não-erudita. Sua atuação foi decisiva para a inclusão dessa linguagem no circuito artístico contemporâneo ao editar publicações e realizar exposições individuais e coletivas sob o olhar dos principais curadores e críticos do país. O elenco, que passou a ocupar espaço na mídia especializada, vem conquistando ainda a cena internacional ao participar, entre outras, das exposições Histoire de Voir, na Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, na França, em 2012, e da Bienal Entre dois Mares -- São Paulo | Valencia, na Espanha, em 2007. Emblemática desse desempenho internacional foi a mostra individual Veio -- Cícero Alves dos Santos, em Veneza, paralelamente à Bienal de Artes, em 2013. No Brasil, além de individuais e de integrar coletivas prestigiadas, os artistas da galeria têm suas obras em acervos de importantes colecionadores e de instituições de grande prestígio e reconhecimento, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Afro Brasil (SP), o Pavilhão das Culturas Brasileiras (SP), o Instituto Itaú Cultural (SP), o SESC São Paulo, o MAM- Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o MAR, na capital fluminense.


 


Sobre Lucas Dilacerda


Curador e crítico de arte, Lucas Dilacerda é sócio da AICA – International Association of Art Critics. Possui Graduação, Mestrado e Doutorado em Artes, com Especialização em História da Arte e Pós-Graduação em Curadoria e Crítica de Arte. Também é graduado e Mestre em Filosofia, com ênfase em Estética. Em 2024, foi curador da Bienal Internacional do Sertão, pela qual recebeu o prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) na categoria Destaque Regional do Nordeste. Realizou mais de 70 curadorias e produziu cerca de 80 textos e 250 apresentações em diversas instituições de arte, tais como Sony (Europa), Meridiano (Argentina), Museu de Arte Moderna da Bahia, Instituto Goethe, Parque Lage, Sesc, entre outros.


 


SERVIÇO


Exposição Navegante Tremembé - Memórias da terra


Curadoria de Lucas Dilacerda


Período: 28 de abril a 11 de julho de 2026


Abertura: 28 de abril, às 18hs


Encerramento: 11 de julho de 2026


 


Galeria Estação 


Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo. 


Local: 2º andar 


Horários de funcionamento da galeria: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.


Tel: 11 3813-7253


Email: contato@galeriaestacao.com.br


Site: www.galeriaestacao.com.br/


Instagram: @galeriaestacao



Informações para a imprensa:


Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo


Erika Balbino: (11) 98223-1561 / João Jacques (11) 99607-0994 


 


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