MARIA AUXILIADORA: NO TERRAÇO DO MUNDO

em cartaz
31.05.2021 a 26.06.2021
Galeria Estação | Rua Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros | São Paulo - Brazil

INTRODUÇÃO

Maria Auxiliadora

Infelizmente não a conheci. Ela morreu jovem, em 1974, aos 39 anos. Fui apresentada a seu trabalho pelo Werner Arnold, alemão com fortes raízes no Brasil, com Pietro Maria Bardi, que a descobriu na praça da República. Juntos, editaram seu primeiro livro.

Sua obra encontrou muitos apreciadores naqueles anos. Passou um período afastada do grande público, lembrada por poucos, como se deu com a maioria dos artistas autodidatas.

A Galeria Estação, fundada em 2004, nasceu para dar maior visibilidade a esses artistas. Orgulhamo-nos do nosso trabalho, divulgando-os e expondo-os, além de mostrá-los em diálogo com muitos artistas contemporâneos. Se há anos eu dizia que não era saudável que a Estação fosse a única galeria a correr nessa direção, hoje a vejo seguida por vários galeristas.

Esta exposição da Maria Auxiliadora vem após a do Masp, em 2016. Heitor Martins na presidência e Adriano Pedrosa na direção artística trouxeram o reforço institucional que havia sido esquecido. Aquela mostra, individual, exibiu um grande acervo de vários colecionadores e enalteceu o nome e o trabalho de Maria Auxiliadora no Brasil e no exterior. O livro que a acompanhou traz textos históricos e atuais e fotos das obras expostas.

Para nosso orgulho, muitas pinturas do catálogo do Masp encontram-se na nossa exposição.

Vilma Eid

texto

Maria Auxiliadora: no terraço do mundo
por Pollyana Quintella


Apesar da atuação curta e meteórica no meio artístico brasileiro (1967-1974), Maria Auxiliadora soube afirmar sua obra enquanto produção de vitalidade. Sua técnica barata –misto de tinta a óleo nacional, massa Wanda, comumente utilizada em reparos domésticos, e vez ou outra seus próprios fios de cabelo – é ponto de partida para construir um outro mundo possível, cujo espaço para o sonho e a fabulação está não apenas garantido como plenamente investido.


Nesta exposição, são muitas as cenas que posicionam o lazer e o prazer enquanto elementos centrais, tão presentes nas gafieiras, sambas, bailes de carnaval, namoricos e paqueras de toda ordem, mas também em rituais religiosos e situações de trabalho feliz, espécie de imagem contrária às condições a que a comunidade negra estava submetida no labor no campo e na cidade. É assim que vemos os trabalhadores representados por Auxiliadora: integrados à terra e exercendo um cultivo algo sadio, por vezes também cantando, dançando e se divertindo. Enquanto trabalham, seus personagens ostentam modelitos fashion, estampas bem cuidadas, babados, rendas e penteados avolumados cheios de textura, misto de memória das histórias da família, gosto pela moda (Auxiliadora aprendeu a bordar com sua mãe com apenas nove anos de idade, e desejava “estudar para modelista”,1 todas as suas fotografias esbanjam um meticuloso esmero com a própria aparência) e desejo de uma outra comunidade. Aliás, tanto a vida quanto a obra de Maria Auxiliadora clamam por uma leitura em torno da ideia de comunhão, espécie de quilombismo. Lembremos de Abdias Nascimento, para quem “Quilombo quer dizer reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial”.2 Ao conjugar diferentes cenas ao mesmo tempo, as pinturas da artista tendem a sinalizar uma simultaneidade não linear que é própria da experiência da coletividade.


Junto a isso, é preciso reconhecer a obra de Auxiliadora no trânsito constante entre tradição e modernidade, o rural e o urbano, moda e cultura pop, religiosidade e sincretismo, gênero e raça, singularidade e coletividade, espaço público e privado, entre outros binômios mais ou menos harmoniosos. É justamente na dificuldade de categorizá-la que sua força se costura, e isso implica assumir o caráter ativo, crítico e autoconsciente de seu corpus de trabalho, o exato oposto das compreensões em torno do que seja a ingenuidade naif e seus correlatos.


Vou além: a obra de Maria Auxiliadora reflete as condições para uma vida plena. Há um céu estrelado para cada casal, um batuque para cada festa, uma renda para cada mulher, um milho para cada galinha, uma morte digna para cada doente. Tal plenitude também se manifesta no modo como a artista tende a impregnar sua superfície pictórica de gosto decorativo – sintoma de sua vocação lírica. Flores, motivos vegetais, estampas, padrões geométricos, tudo é pretexto para ornamentar as superfícies do mundo. Se o decorativismo dispersa a atenção e institui ritmo à composição, também nos indica que há capricho em toda e cada parte.


Por fim, estamos diante de uma produção que corresponde a nossas expectativas e as desafia, simultaneamente. Onde se esperam ingenuidade e tradição, há moda, cidade e malícia. Onde se espera trabalho produtivo, há lazer, diversão e descanso. Onde se espera pureza religiosa, há sincretismo e contaminação. Vou me repetir, mas a ênfase faz-se necessária: Maria Auxiliadora nos ajuda a imaginar e produzir um mundo cuja centralidade é a vida.


 


Notas


1 Frota, Lélia Coelho. Mitopoética de 9 artistas brasileiros. Rio de Janeiro: Funarte, 1978, p. 76.


2 Nascimento, Abdias do. O quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 31.


 

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Maria Auxiliadora: no terraço do mundo
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